Criptomoedas e Crime Organizado.
- Gil Junqueira

- 4 de ago. de 2025
- 6 min de leitura

As criptomoedas revolucionaram o mundo financeiro, trazendo inovação, velocidade e segurança às transações. No entanto, essa mesma tecnologia tem sido utilizada por organizações criminosas para praticar ilícitos de forma sofisticada e transnacional. Entender o papel das criptomoedas no crime organizado é fundamental para o Direito, exigindo análise dos fundamentos jurídicos, exemplos práticos e abordagem internacional.
O avanço das criptomoedas, como Bitcoin, Ethereum e outras, revolucionou o sistema financeiro global, trazendo inovação, agilidade e descentralização nas transações. No entanto, essa mesma tecnologia também abriu portas para novos desafios no combate ao crime organizado, especialmente em relação à lavagem de dinheiro, financiamento ao terrorismo e ocultação de ativos.
O avanço das tecnologias digitais transformou a economia e as relações jurídicas, trazendo benefícios mas também novos riscos. Nesse cenário, criptomoedas, como o Bitcoin, surgiram como meios inovadores de transferência de valores sem a intermediação de bancos ou governos. Apesar das vantagens, essas moedas digitais têm sido cada vez mais utilizadas por organizações criminosas devido à relativa facilidade de anonimato, rapidez de transações e transnacionalidade.
Fundamentos Jurídicos:
No Brasil, a Lei nº 12.846/2013 (Lei Anticorrupção), o Código Penal (art. 1º da Lei de Lavagem de Dinheiro, Lei nº 9.613/1998, atualizada pela Lei nº 13.506/2018), e a Resolução nº 41/2019 do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) são alguns dos principais marcos regulatórios que tratam da repressão à lavagem de dinheiro, inclusive com o uso de ativos virtuais.
No Brasil, ainda não existe uma lei específica sobre criptomoedas, mas várias normas se aplicam ao seu uso:
Código Penal Brasileiro: Crimes como lavagem de dinheiro (Lei 9.613/1998), organização criminosa (Lei 12.850/2013) e estelionato podem envolver criptomoedas como meio ou produto do crime.
Banco Central e CVM: Essas entidades regulam o funcionamento de exchanges e impõem comunicação obrigatória de operações suspeitas, alinhando-se à Lei de Prevenção à Lavagem de Dinheiro.
Marco Civil da Internet (Lei 12.965/2014): Oferece parâmetros para a cooperação judicial e guarda de logs em investigação digital.
No Brasil, a legislação ainda está em processo de adaptação para lidar com as especificidades das criptomoedas. O principal marco é a Lei nº 14.478/2022 (Marco Legal das Criptomoedas), que estabelece diretrizes para a prestação de serviços de ativos virtuais e busca coibir práticas ilícitas. Além disso, a Lei de Lavagem de Dinheiro (Lei nº 9.613/1998) já vem sendo aplicada para punir operações suspeitas envolvendo criptoativos.
No âmbito internacional, a Convenção de Palermo (Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional), e as recomendações do GAFI (Grupo de Ação Financeira Internacional) estabelecem princípios para cooperação, identificação, rastreamento e bloqueio de bens oriundos de crimes, incluindo criptomoedas. O GAFI, inclusive, recomenda a aplicação das mesmas exigências de combate à lavagem de dinheiro, como KYC (Know Your Customer), às exchanges de criptomoedas.
No âmbito internacional, destaca-se a atuação do Grupo de Ação Financeira Internacional (GAFI/FATF), que emitiu recomendações para que países adotem regras rígidas de identificação de clientes e monitoramento de transações com criptomoedas. Tratados como a Convenção de Budapeste sobre Cibercrime também incentivam a cooperação internacional para investigação e repressão desses delitos.
O combate ao crime organizado via criptomoedas é, sobretudo, um desafio global.
Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional (Convenção de Palermo, 2000): Determina cooperação internacional para combater crimes financeiros e exige a atualização de práticas investigativas.
Forças-tarefa internacionais: Como a Europol, FBI, Interpol, vêm investindo em técnicas de investigação forense para rastrear transações em blockchain e identificar envolvidos.
FATF (Grupo de Ação Financeira Internacional): Publica diretrizes recomendando a identificação, comunicação e monitoramento de operações suspeitas com criptomoedas.
Por que Criptomoedas Facilitam o Crime Organizado?
O ambiente digital das criptomoedas oferece:
Anonimato ou pseudonimato: Dificulta identificar os verdadeiros titulares das carteiras.
Rapidez transnacional: Valores podem cruzar fronteiras instantaneamente, sem regulação estatal.
Dificuldade de rastreio: Apesar da transparência do blockchain, técnicas de “mixing”, “tumblers” e uso de múltiplas carteiras fragmentam as transações.
Essas características favorecem crimes como lavagem de dinheiro, financiamento ao terrorismo, tráfico de drogas, evasão de divisas, extorsão (ransomware), golpes e esquemas de pirâmide financeira.
Exemplos Práticos:
1. Ransomware: Criminosos invadem sistemas de empresas e exigem resgate em Bitcoin por dificultar o rastreamento da autoria e destino do valor.
2. Lavagem de dinheiro: Facções brasileiras já são investigadas por utilizar criptomoedas para ocultar recursos provenientes do tráfico, transferindo fortunas para carteiras no exterior.
3. Pirâmides financeiras: Promessas de altos rendimentos com trading de criptomoedas são usadas para captar vítimas e, eventualmente, fugir com os valores.
4. Investigação e Perícia: A Polícia Federal e o Ministério Público têm ampliado conhecimentos sobre análise forense de blockchain e cooperação internacional para identificação de suspeitos.
5. Cooperação de Exchanges: A legislação brasileira agora exige que corretoras informem transações à Receita Federal e colaborem em investigações.
6. Projetos de Lei: O PL 4401/2021 (em tramitação no Brasil) busca regular o setor, trazendo mais transparência e controle ao mercado de criptomoedas.
7. Operação Kryptos (Brasil, 2021): A Polícia Federal desmantelou um esquema de lavagem de dinheiro que utilizava criptomoedas para movimentar valores milionários provenientes de crimes financeiros.
8. Caso Silk Road (EUA): O famoso mercado ilegal na deep web utilizava Bitcoin para comercializar drogas e outros produtos ilícitos, demonstrando como as criptomoedas podem ser usadas para ocultar a identidade dos envolvidos.
Jurisprudência em construção:
Casos já têm chegado ao STJ e TRFs, reconhecendo que criptomoedas podem ser objetos de busca e apreensão, penhora e, principalmente, provas em processos de lavagem de dinheiro.
Jurisprudência Dominante:
O Poder Judiciário brasileiro tem reconhecido o uso de criptomoedas como meio de lavagem de dinheiro e autorizado o bloqueio e a apreensão desses ativos em investigações criminais. Exemplo disso é a decisão do TRF-3 (Apelação Criminal 0000261-59.2017.4.03.6109/SP), que confirmou a possibilidade de sequestro de Bitcoins em processos de lavagem de capitais.
No cenário internacional, cortes dos Estados Unidos e da União Europeia também têm admitido a utilização de provas digitais relacionadas a transações em blockchain, desde que respeitados os princípios do devido processo legal e da cadeia de custódia.
Criptomoedas, por sua natureza descentralizada e potencial anonimato das transações, oferecem vantagens para o crime organizado: transferências velozes, difícil rastreamento e ausência de intermediários financeiros tradicionais. Organizações criminosas têm explorado essas características para viabilizar práticas como:
Lavagem de dinheiro: converter dinheiro obtido em atividades ilícitas por meio de compra e venda de criptomoedas.
Financiamento de crimes: compra de armas, drogas, serviços ilícitos em ambientes digitais (dark web).
Extorsão e sequestro virtual: pedidos de resgate em criptomoedas, dificultando identificação.
O uso de criptomoedas por organizações criminosas é um desafio moderno que exige atualização das leis, capacitação das autoridades e cooperação internacional. O Direito responde a esse fenômeno por meio de normas penais, de prevenção à lavagem e regulamentação do setor financeiro e digital. O futuro aponta para regulação mais rigorosa e uso cada vez maior de perícia forense e inteligência internacional.
O combate ao uso ilícito de criptomoedas exige intensa cooperação internacional, já que as transações podem ocorrer em múltiplos países e jurisdições. Órgãos como Interpol, Europol e o próprio GAFI trabalham para padronizar procedimentos e facilitar a troca de informações entre autoridades. Outro desafio é a constante evolução tecnológica, que demanda atualização das leis e capacitação dos operadores do direito.
O uso de criptomoedas pelo crime organizado é uma realidade que desafia sistemas jurídicos no mundo todo. O fortalecimento da legislação, a atuação coordenada entre países e o desenvolvimento de técnicas de investigação digital são fundamentais para garantir a efetividade do combate a esses crimes, protegendo a integridade do sistema financeiro e a segurança da sociedade.
Exemplos Reais:
Caso Silk Road (EUA, 2013): O site ilegal de vendas, conhecido pela comercialização de drogas e armas, movimentou milhões em Bitcoin. Após investigação conjunta do FBI e órgãos internacionais, o fundador foi condenado — e criptomoedas foram bloqueadas como prova do crime.
Operação Anonymity (Brasil, 2023): A Polícia Federal identificou uma organização criminosa que lavava dinheiro proveniente de tráfico internacional de drogas por meio de criptomoedas, utilizando exchanges nacionais e estrangeiras. Os valores eram movimentados entre várias carteiras, dificultando o rastreamento dos recursos.
Ataques de Ransomware: Grupos hackers sequestram dados de empresas e exigem resgate em Bitcoin. Em 2021, empresas globais de infraestrutura e saúde sofreram prejuízos, forçando-as a negociar com criminosos para liberar sistemas essenciais.
Direito Internacional e Cooperação:
A natureza global das criptomoedas exige intensa cooperação internacional. Hoje, países trocam informações por meio de acordos e tratados, como a já citada Convenção de Palermo e a Convenção de Budapeste (para crimes cibernéticos).
Agências internacionais, como a Interpol e a Europol, frequentemente promovem operações conjuntas para combater o uso criminoso das criptos.
O Brasil tem avançado na circulação de informações bancárias entre países, via MLATs (Acordos de Assistência Judiciária Mútua), e no desenvolvimento de marcos normativos, como o PL das Criptomoedas (Lei 14.478/2022), que regula exchanges e impõe normas de compliance.
Apesar dos esforços, o rastreamento de criptomoedas ainda enfrenta obstáculos:
Rápida criação de novas moedas e tokens;
Utilização de mixers e tumbles (serviços que embaralham transações e dificultam rastreamento);
Falta de harmonização regulatória global, pois muitos países ainda não impõem controles rígidos sobre o setor.
No entanto, tribunais brasileiros e internacionais já reconhecem criptomoedas como ativos passíveis de bloqueio, sequestro e confisco em processos criminais — uma tendência importante para ampliar o combate ao crime organizado.
Criptomoedas transformaram a dinâmica do crime organizado e impõem novos desafios ao Direito. A adoção de legislação específica, cooperação internacional eficiente e aprimoramento das técnicas de investigação digital são fundamentais para garantir a responsabilização de criminosos e proteger a ordem econômica global.




Comentários